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quinta-feira, 16 de julho de 2020
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Por que o desejo de tirar a liberdade de imprensa?

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O constante assédio aos jornalistas e veículos de comunicação demonstra uma sociedade cada vez mais intolerante, desigual e autoritária

Meus pais não queriam que eu fosse jornalista. Eles diziam que era uma profissão perigosa, que seria melhor buscar outra escolha. Depois, se acostumaram com a ideia e me incentivaram. Se me perguntarem hoje se desejo que meus filhos se tornem jornalistas, honestamente, não sei o que responder. A cada dia, a situação fica mais complexa para a minha categoria.

Relatório da ONG Repórteres sem Fronteiras revela que 49 jornalistas foram mortos em todo o mundo, no ano passado, por causa de suas atividades profissionais. Além disso, 389 estavam presos e 57 reféns. O balanço não considera outras formas de intimidação, como violência física, que pode ocorrer quando estamos fazendo matérias nas ruas, e psicológica, com ameaças, sejam pessoalmente, por telefone ou pela internet.

Penso que neste momento a pressão sobre os profissionais de imprensa está em um nível muito maior do que quando meus pais diziam que ser repórter era perigoso. Contudo, a escalada da violência tem uma premissa: calar a voz da imprensa e tolher a sua liberdade.

É evidente que os veículos de comunicação têm posições, por mais que devam buscar a imparcialidade em suas coberturas. Sendo assim, se torna natural ter apreço por um tipo de jornal, revista, site, emissora de rádio e canal de televisão, em detrimento a outros. Isso é gosto. Perseguir e fomentar o ódio, por outro lado, demonstra elevado nível de intolerância, autoritarismo e desejo por uma sociedade mais desigual.

O artigo 220 da Constituição Federal garante a liberdade de imprensa como um preceito do Estado Democrático de Direito. O inciso 2º é incisivo ao afirmar que “é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. Infelizmente, a teoria e a prática são bem diferentes.

Nos últimos meses, o Brasil entrou ainda mais em ebulição política e, da mesma forma, os jornalistas passaram a ser cada vez mais perseguidos e intimidados. Isso não ocorre, apenas no Brasil, é bom frisar. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump destila ataques de ódio à imprensa em cada reportagem que lhe desagrade. Intimida repórteres. Ofende. E isso no país tido como um dos maiores defensores da liberdade de expressão.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro segue a mesma linha e declara guerra aberta contra veículos de comunicação e jornalistas. Chama de fake news qualquer informação contrária a ele, seu governo ou familiares, demonstrando intransigência com o contraditório. Já xingou repórteres, mandou calarem a boca, fomentou a perseguição e espalhou mentiras. Seus seguidores compram a briga e já agrediram – fisicamente e psicologicamente – muitos profissionais.

É bom dizer que o que Trump e Bolsonaro – que representam a extrema direita – fazem é apenas acirrar uma perseguição à imprensa, que era feito por outros. Manifestantes da esquerda já agrediram jornalistas, como Caco Barcellos, um dos principais repórteres em defesa dos direitos humanos da história do país. Representantes do PSDB já pediram a “cabeça” (demissão) de jornalistas por matérias contrárias aos seus governos. E a ditadura militar matou, censurou e perseguiu centenas de profissionais para impedir que o povo brasileiro tivesse acesso às informações.

É óbvio que existem jornalistas ruins, que fazem mal uso da profissão. Mas boa parte dos repórteres que conheci, posso testemunhar, eram guiados por um desejo de tornar públicos os problemas da sociedade, no intuito de buscar soluções, diálogo e reflexão. Mudar o mundo ou, ao menos, mostrar quão desigual ele é. Isso é uma característica do jornalista, seja ele católico, evangélico, umbandista, espírita ou ateu.

Na minha experiência profissional, já passei por algumas situações difíceis. Fui alvo de ataques na internet, ameaça de processo e agressão, intimidação. Já fui atingido por objeto atirado de longe. Fiquei com medo de levar tiro de borracha da PM em cobertura em favela. Acordei sendo xingado por filho de vereador ao telefone. Encarei ameaça de promotora. Tive minha demissão pedida por secretário municipal. Neguei propina de bandido. Até perseguição religiosa sofri.

Quantas noites dormi com medo e preocupado. E quantas matérias, de fato, não cheguei a fazer por me fazer uma pergunta essencial: uma reportagem vale a minha vida? Mas a fé em Jesus Cristo, o exemplo da Sagrada Família e o sonho por uma sociedade mais justa me guiam para ser jornalista.

Nos últimos anos, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) tem feito um trabalho exemplar para garantir a liberdade de imprensa. Os locais alvos de mortes de jornalistas recebem outros repórteres – de grandes veículos – enviados pela entidade para investigar as causas dos assassinatos. Essa atitude me lembra um versículo que me é muito caro: “se calarem a voz dos profetas, as pedras gritarão”.

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